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Relação entre álcool e amizade

terça-feira, 19th *.* maio, 2009

Há quem odeie as bebidas alcoólicas com todas as forças possíveis. Assim como têm aqueles que não suportam cigarros. Não recrimino nenhum dos dois tipos de pessoas que são assim. Já fui uma delas, sou e sempre vou ser, acho. Mas em alguns momentos simplesmente me deixo levar por esses prazeres, da mesma maneira que me deixo comer batatas fritas, salgadinhos, refrigerantes e outras porcarias mais.

Essas são algumas coisas que fazem mal, que eu sei que fazem mal, mas mesmo assim não ligo. Sou bem mais aceitável com o álcool do que com a nicotina. E explico o por quê. Só porque todas as vezes em que me diverti com os amigos havia a influência da amiga “catcha”. Não que eu e meus amigos sejamos alcoólatras (pelo menos alguns), mas é que esse é um meio de sociabilização. O cigarro nunca me permitiu isso, por isso não sou tão fã dele.

Obviamente odeio exagerar. Odeio por motivos simples:

– Às vezes dá vontade de vomitar, ou simplesmente faz a gente vomitar;
– na maioria das vezes dá uma ressaca, ô coisinha chata;
– e eu lembro de tudo.

Sim, eu lembro de tudo mesmo. Cada podre que eu faço quando fiquei extremamente bêbado eu lembro. É por isso que eu não acredito naquele papo de bêbado culpado que não lembra de nada do que fez. Mas acredito em outra coisa: na nossa capacidade cerebral de facilitar o esquecimento daquelas coisas que são desagradáveis para nossa vida. Ana Freitas explica melhor isso aqui.

Foi em rodas de bar, boates ou festas regadas a CH3CH2OH, ou seja, etanol, que tive as melhores conversas com as pessoas que eu conheço. São nesses locais que você descobre como cada pessoa funciona realmente, sem máscaras, sem receios, sem falsidades. Isso porque, segundo o centro de informações sobre drogas psicotrópicas da Unifesp, o tal do álcool etílico afeta uma zona do cérebro responsável pelo auto-controle. Também diz que atua na área responsável pela memória, mas eu ainda não acredito muito.

Prefiro a última fórmula

Prefiro a última fórmula

E foi numa festa dessas que eu dei um quase PT. O primeiro da minha vida. Uma coisa que eu tinha prometido para mim mesmo, aos 14 anos, que nunca ia deixar acontecer. Foi no dia que o Brasil foi pentacampeão da Copa do Mundo, lá no Oriente.

Naquele dia, para comemorar o futebol, teve churrasco aqui em casa. E, claro, tinha álcool. Meu papai estava responsável pela churrasqueira e, teoricamente, não deveria beber. Porém, os “amigos” dele fizeram uma daquelas brincadeiras que o gargalo da bebida passa de boca em boca (bem anti-higiênico) e, em determinado momento, eu vi um desses amigos virando a garrafa na boca do meu pai.

Okay, o homem da casa não tem um histórico de vida sem álcool e ele facilitou a brincadeira. Mas condeno todos e cada um daqueles seres responsáveis por trazerem as garrafas dos destilados pro meu quintal (até então, a festa tinha cerveja) e por viraram a garrafa na boca do meu pai.

Naquele dia, o seu Carlos deu PT e ficou jogado no chão do banheiro. Eu limpei o vômito dele, eu dei banho gelado nele e eu fiz o café sem açúcar para ele. Junto com meu irmão e minha mãe. E ainda o escutamos dizer “Ninguém me ama”. Os “amigos” dele simplesmente foram embora, afinal, não tinha mais churrasco porque o responsável não estava bem.

Foi no dia 30 de junho de 2002 que eu peguei todas as garrafas do bar da sala de casa e virei na pia da cozinha. Foi nesse dia que eu falei que não ia fazer isso nunca. Mas eu só tinha 14 anos e não sabia do peso que tinha essa promessa e esse “nunca” que eu havia dito para mim mesmo.

Quase sete anos depois, eu estava numa festa à fantasia todo de branco, vestido de exu anjo, com asas muito fofas e brancas. Foi um semi-presente de aniversário que eu recebi da Thaís e da Patrícia, amigas da faculdade (eu ia ganhar mais um da patota inteira). O melhor da festa, além do mico das fantasias, é que era open bar. Ou seja, eu enchi o caneco.

Só que sou moderado. Então tinha seguido todos os conselhos dos amigos: me alimentei bem antes e não misturei nenhuma bebida. Naquele dia não tinha cerveja ou vinho que me tirasse do caminho da Vodka, com seus 40% de etanol (para fazer o motor funcionar bem) e 462 Kcal por copo. Uau, engorda.

Foram algumas caipirinhas e alguns copos só com o gelo de acompanhamento. Dancei com uma enfermeira, tirei foto com uma hippie, desci até o chão com uma policial e queimei com cigarro minhas amigas Marinheira (Thaís) e Meretriz (Patrícia). Imitei um paquito e uma go go girl dançando. Eu definitivamente perdi o rumo. Até papel higiênico da fantasia de ‘casinha’ eu tirei.

Depois disso, subi para o andar de cima, sentei numa cadeira ao lado do Super 15 e pensei “Minha cabeça tá pesada (mais que o comum)” e encostei a bendita gigante na mesa. Pronto. Nesse momento meu cérebro mandou sinais para o meu estômago, que os aceitou de maneira calorosa. Foi o tempo de os músculos das minhas pernas se alertarem e abrirem.

Blergh

Blergh

Fiquei assim, por um bom tempo. Acho que por quase duas horas. O Super 15 estava malzão também. Acho que ele não fez nenhuma promoção no dia seguinte. Minhas amigas foram amigas de verdade. Diferente dos “amigos” do meu pai, elas cuidaram de mim. Jogaram água na minha cabeça, compraram sorvete e me aturaram bêbado, várias vezes mais chato do que já sou naturalmente. A Patrícia até tirou minhas asas para eu vomitar melhor.

Nesse dia a promessa de novo, mas de uma maneira diferente. Agora vou me controlar, porque dar um PT daqueles não foi nada legal nem para mim nem para as pessoas que estavam comigo. Também vou dar mais valor ainda para os meus amigos, porque conviver comigo e ainda me ajudar bêbado mostrou que eles estão aptos a conviver o resto da vida. E o álcool ainda será bem vindo para sociabilizar, afinal, há milhares de anos ele tem cumprido esse papel na sociedade.