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O roteiro de filmes que não existem

sábado, 23rd *.* maio, 2009

A natureza humana coloca na nossa vida a relação afetiva como uma das coisas mais importantes. Desde que nascemos recebemos essa carga, seja pelo carinho dos nossos pais e familiares, seja pela amizade que mantemos com alguns conhecidos, ou até mesmo pelo simples respeito que recebemos dos outros conhecidos ou desconhecidos. E [às vezes] como um bom reprodutor da vida, boa parte dos filmes nos passa isso como uma das coisas que são a nossa finalidade.

Só que uma das coisas que nenhum filme, pelo menos nenhum que eu assisti até hoje, faz de um jeito bem feito é como a vida e as relações afetivas humanas são controversas. Como elas dão errado. Como elas têm problemas. Nenhum. Os roteiros podem até ter aquela parte em que tudo dá errado para o mocinho(a), quando ele chora, se sente arrasado.

Só que aí entra a fada madrinha dos roteiros de filmes e muda tudo. A garota(a) que não presta atenção no herói começa a achar ele simplesmente o máximo. Então o cara consegue virar o jogo. Ele fica forte, dá a volta por cima, acaba com o vilão (sempre tem um para ficar legal) e a garotinha se apaixona por ele. Parece até os contos de fada mesmo “e todos viveram felizes para sempre”.

Ah, o amor! *suspira*

Ah, o amor! *suspira*

Só que tem um filme que eu assisto desde pequeno aqui perto de casa que, até semana passada, era um drama para mim. Um drama com toques de comédia pastelão para quem assiste. Um filme que eu nunca ia ver o “e viveram felizes para sempre”. Não pelo menos com uma relação afetiva. Mas daí teve uma reviravolta que eu não esperava: um aparente final feliz. Igual esse dos filmes, quando o herói fica com a mocinha. Foi uma cena espetacular, só que quem não conhece a história como um todo vai achar bizarramente comum.

A contextualização.
Um cara conhecido como Galego* é casado com Liana*. Eles tem quatro filhos: Julia*, a mais velha, Carol*, Simão* e Ana*. A idade das crianças varia entre 17 e 9 anos. Eles moram numa casa da periferia de São Paulo aparentemente pequena para uma família de seis pessoas, dois cachorros e um gato.

O pai dificilmente se mantém num emprego e é alcoólatra. Trabalha basicamente como pedreiro e boa parte do dinheiro que consegue trabalhando ele gasta nos bares da vila.

Os filhos, criados por si mesmos na maior parte do tempo porque a mãe trabalha, são crianças tipicamente da perifa: ficam boa parte do tempo nas ruas e frequentam a escola em determinado período do dia. Eles também são extremamente indóceis, daqueles que arranjam briga com qualquer um, desde a tia da bombonieri até um estranho que olhe torto.

Pois bem. Liana não tem um emprego certo também: ajudou os pais numa chácara de hortaliças, vendeu essas hortaliças por conta própria, trabalhou em metalúrgicas, já vendeu churrasquinho [não de gato] no ponto de ônibus e todo o resto para manter a família. Ela parece ser a mocinha.

O roteiro.
No início do casamento, quando as crianças eram mais novas do que no trecho em que faz parte do filme, Galego costumava, como todo bêbado-macho-bonzão, bater na Liana. Ela não era a nossa típica heroína que apenas chora e sangra e depois esconde o que houve de toda a vizinhança. Ela apanha, e fica marcada, mas dá uns supapos no Galego também, pra ele ficar esperto. Ela é firmeza.

Parte da educação indócil dos filhos veio da mãe. Liana adora um barraco. Briga com qualquer um que ouse falar mal das crias para ela. Bateu na porta dela para reclamar, vai ouvir uns gritos e o circo está montado. Liana é adorável.

Só que ela simplesmente cansou. Aquilo não era vida para ela: sustentar a família, cuidar dos rebentos e da casa e ainda levar umas porradas. Não. Ela decide, num momento de fúria, expulsar o Galego de casa da mesma maneira que ele faz, no sopapo. Ele, porém, ama Liana e não aprende. Sempre volta para casa de alguma maneira.

Como parte do efeito do álcool, o corpo de Galego já não reage tão bem. Ele tem reflexos lentos e anda mole. Numa dessas, ele volta para casa e capota no sofá. Liana o odeia por tudo o que ele já fez. Tem uma idéia; vai até o banheiro e pega o Prestobarba. Volta para a sala e olha para o marido; chega perto e vê se ele realmente está capotado. Pensa e age: passa a Gillete no rosto dele.

Nessa parte, aposto que você, leitor, está no clímax. PQP. Liana vai desfigurar todo o rosto de Galego, e ele, meio sedado pela bebida, vai acordar tarde demais, depois de ter sangrado muito e vai morrer com a mulher olhando para a cara dele. Já imagina o final. Ela indo presa, como uma doida psicótica gritando “ele mereceu, ele mereceu”. Ou se não, você, leitor, está no total anticlímax da história. Apesar de tudo, ela o ama e apenas vai fazer a barba do Galego. Mas Liana é uma mocinha meio atípica, como já disse.

Ela resolveu arrancar as sobrancelhas do Galego. Observou cada ponto do rosto dele, meio queimado pelo sol, e escolheu a sobrancelha para ser a vítima. Pelo nome, imaginem o Galego sendo galego, ou seja, a sobrancelha dele já não era muito visível. Mas sem, ele ficou muito bizarro. Mesmo. Como qualquer pessoa sem esses pelinhos sobre os olhos.

Bonitão!

Bonitão!

Ele não fez nada no dia seguinte, simplesmente saiu na rua e todo mundo viu que Liana teve um momento fúria em casa. Ela continuou cansada do marido. Resolveu agir de uma maneira melhor e mudou-se para a casa dos pais, alguns bairros depois do dela.

Nesse período há um branco do autor do post, porque Liana realmente sumiu, e Galego ficou triste e amuado, dentro de casa.

Galego começou a se controlar. Aparentemente, parou de beber; pelo menos não fica mais bêbasso como antes. Julia, Carol, Simão e Ana viviam, nesse período de separação, junto com a mãe de dia e o pai à noite. Basicamente voltavam para casa apenas para dormir.

Eu já estava certo de que a separação havia se consumado. Anos se passaram. Julia já estava no terceiro namorado. A mais nova, Ana, já tinha perdido a virgindade e andava para cima e para baixo pirigueteando. Simão esticou, como diz minha avó, mas continuou magrelo. Liana sumiu.

Porém, a história teve uma reviravolta mesmo e o drama do pai alcoólatra que causa a separação da família de periferia que não tem um meio de renda razoável, com algumas partes cômicas – como ver Galego durante algum tempo sem sobrancelhas -, voltou para a parte do “viveram felizes para sempre” dos filmes.

Semana passada eu estava descendo minha rua, atrasado, e vi um casal na minha frente de mãos dadas. A cena era até juvenil, o homem estava com a sua mão sobre a da mulher, e ambas estavam no bolso da calça dele. Fofinho. Quando cheguei mais perto reconheci: era Galego e Liana, de mãos dadas, e falando baixinho, como se fossem confidências de um plano adolescente que iria acontecer em instantes.

Não acreditei naquilo. Queria ter certeza e andei mais rápido para passar na frente deles e ver os rostos. E realmente eram eles. Estavam juntos apesar de tudo. E estavam felizes, apesar de tudo o que já havia ocorrido. E eu pensando que não existia roteiros de filme na vida real.

*Os nomes são fictícios, mas a história é estranhamente real

E ele não fez nada no dia seguinte, simplesmente saiu na rua e todo mundo viu que Liana teve um momento fúria em casa.
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Relação entre álcool e amizade

terça-feira, 19th *.* maio, 2009

Há quem odeie as bebidas alcoólicas com todas as forças possíveis. Assim como têm aqueles que não suportam cigarros. Não recrimino nenhum dos dois tipos de pessoas que são assim. Já fui uma delas, sou e sempre vou ser, acho. Mas em alguns momentos simplesmente me deixo levar por esses prazeres, da mesma maneira que me deixo comer batatas fritas, salgadinhos, refrigerantes e outras porcarias mais.

Essas são algumas coisas que fazem mal, que eu sei que fazem mal, mas mesmo assim não ligo. Sou bem mais aceitável com o álcool do que com a nicotina. E explico o por quê. Só porque todas as vezes em que me diverti com os amigos havia a influência da amiga “catcha”. Não que eu e meus amigos sejamos alcoólatras (pelo menos alguns), mas é que esse é um meio de sociabilização. O cigarro nunca me permitiu isso, por isso não sou tão fã dele.

Obviamente odeio exagerar. Odeio por motivos simples:

– Às vezes dá vontade de vomitar, ou simplesmente faz a gente vomitar;
– na maioria das vezes dá uma ressaca, ô coisinha chata;
– e eu lembro de tudo.

Sim, eu lembro de tudo mesmo. Cada podre que eu faço quando fiquei extremamente bêbado eu lembro. É por isso que eu não acredito naquele papo de bêbado culpado que não lembra de nada do que fez. Mas acredito em outra coisa: na nossa capacidade cerebral de facilitar o esquecimento daquelas coisas que são desagradáveis para nossa vida. Ana Freitas explica melhor isso aqui.

Foi em rodas de bar, boates ou festas regadas a CH3CH2OH, ou seja, etanol, que tive as melhores conversas com as pessoas que eu conheço. São nesses locais que você descobre como cada pessoa funciona realmente, sem máscaras, sem receios, sem falsidades. Isso porque, segundo o centro de informações sobre drogas psicotrópicas da Unifesp, o tal do álcool etílico afeta uma zona do cérebro responsável pelo auto-controle. Também diz que atua na área responsável pela memória, mas eu ainda não acredito muito.

Prefiro a última fórmula

Prefiro a última fórmula

E foi numa festa dessas que eu dei um quase PT. O primeiro da minha vida. Uma coisa que eu tinha prometido para mim mesmo, aos 14 anos, que nunca ia deixar acontecer. Foi no dia que o Brasil foi pentacampeão da Copa do Mundo, lá no Oriente.

Naquele dia, para comemorar o futebol, teve churrasco aqui em casa. E, claro, tinha álcool. Meu papai estava responsável pela churrasqueira e, teoricamente, não deveria beber. Porém, os “amigos” dele fizeram uma daquelas brincadeiras que o gargalo da bebida passa de boca em boca (bem anti-higiênico) e, em determinado momento, eu vi um desses amigos virando a garrafa na boca do meu pai.

Okay, o homem da casa não tem um histórico de vida sem álcool e ele facilitou a brincadeira. Mas condeno todos e cada um daqueles seres responsáveis por trazerem as garrafas dos destilados pro meu quintal (até então, a festa tinha cerveja) e por viraram a garrafa na boca do meu pai.

Naquele dia, o seu Carlos deu PT e ficou jogado no chão do banheiro. Eu limpei o vômito dele, eu dei banho gelado nele e eu fiz o café sem açúcar para ele. Junto com meu irmão e minha mãe. E ainda o escutamos dizer “Ninguém me ama”. Os “amigos” dele simplesmente foram embora, afinal, não tinha mais churrasco porque o responsável não estava bem.

Foi no dia 30 de junho de 2002 que eu peguei todas as garrafas do bar da sala de casa e virei na pia da cozinha. Foi nesse dia que eu falei que não ia fazer isso nunca. Mas eu só tinha 14 anos e não sabia do peso que tinha essa promessa e esse “nunca” que eu havia dito para mim mesmo.

Quase sete anos depois, eu estava numa festa à fantasia todo de branco, vestido de exu anjo, com asas muito fofas e brancas. Foi um semi-presente de aniversário que eu recebi da Thaís e da Patrícia, amigas da faculdade (eu ia ganhar mais um da patota inteira). O melhor da festa, além do mico das fantasias, é que era open bar. Ou seja, eu enchi o caneco.

Só que sou moderado. Então tinha seguido todos os conselhos dos amigos: me alimentei bem antes e não misturei nenhuma bebida. Naquele dia não tinha cerveja ou vinho que me tirasse do caminho da Vodka, com seus 40% de etanol (para fazer o motor funcionar bem) e 462 Kcal por copo. Uau, engorda.

Foram algumas caipirinhas e alguns copos só com o gelo de acompanhamento. Dancei com uma enfermeira, tirei foto com uma hippie, desci até o chão com uma policial e queimei com cigarro minhas amigas Marinheira (Thaís) e Meretriz (Patrícia). Imitei um paquito e uma go go girl dançando. Eu definitivamente perdi o rumo. Até papel higiênico da fantasia de ‘casinha’ eu tirei.

Depois disso, subi para o andar de cima, sentei numa cadeira ao lado do Super 15 e pensei “Minha cabeça tá pesada (mais que o comum)” e encostei a bendita gigante na mesa. Pronto. Nesse momento meu cérebro mandou sinais para o meu estômago, que os aceitou de maneira calorosa. Foi o tempo de os músculos das minhas pernas se alertarem e abrirem.

Blergh

Blergh

Fiquei assim, por um bom tempo. Acho que por quase duas horas. O Super 15 estava malzão também. Acho que ele não fez nenhuma promoção no dia seguinte. Minhas amigas foram amigas de verdade. Diferente dos “amigos” do meu pai, elas cuidaram de mim. Jogaram água na minha cabeça, compraram sorvete e me aturaram bêbado, várias vezes mais chato do que já sou naturalmente. A Patrícia até tirou minhas asas para eu vomitar melhor.

Nesse dia a promessa de novo, mas de uma maneira diferente. Agora vou me controlar, porque dar um PT daqueles não foi nada legal nem para mim nem para as pessoas que estavam comigo. Também vou dar mais valor ainda para os meus amigos, porque conviver comigo e ainda me ajudar bêbado mostrou que eles estão aptos a conviver o resto da vida. E o álcool ainda será bem vindo para sociabilizar, afinal, há milhares de anos ele tem cumprido esse papel na sociedade.