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Histórias de coletivo – “estreia”

domingo, 21st *.* junho, 2009

Tem vezes que andar de coletivo em São Paulo pode ser uma aventura; em outras, a viagem se torna pura diversão. Ontem eu tive uma dessas viagens inesquecíveis e engraçadas, o que salvou meu sábado caseiro. A responsável foi uma mulher bêbada [não lhe agradeci porque provavelmente ela iria esquecer e tirar uma com minha cara].

Nem sempre é agradável

Nem sempre é agradável

Fui fazer o último trabalho do semestre para a faculdade e passei seis horas na casa da Patrícia. Na volta, lá pelas 22h30, estava na lotação sem nada para fazer quando a mulher entrou. O nome dela vai ser Joaquina. Estava comendo uma coxinha dessas barraquinhas que tem no metrô e, até então, era uma passageira como qualquer outra.

Joaquina sentou no último banco vago, aquele assento reservado após a catraca, e simplesmente gritou “Vamo, vamo logo. Todo dia essa demora, fica embaçando para sair daqui. Ô motorista, vamo embora. MEU DEUS, vou chegar em casa onze horas”. A mulher ao seu lado fez cara de nojo [depois percebi que foi por causa do frango que saiu voando da boca da Joaquina].

Realmente, a lotação 3739-10 demora muito para sair do terminal, mas a reclamação de Joaquina não era comum. Ela então começou a resmungar “Nossa senhora de Aparicida, quando eu chegar em casa meu marido não vai querer saber de mim. Vou ter de me explicar, ele vai me botar para fora. Ô meu Deus, ONZE HORAS”.

Depois de dizer muitas coisas sem sentido, Joaquina começou a explicar a história para todos os passageiros mesmo sem ninguém ter perguntado nada. Ela estava trabalhando e pediu para sair no horário, às 17h, para o seu patrão. Joaquina, no entanto, não foi para casa e sim para “um botéquim”. Lá, as horas passaram e ela nem percebeu, tadica.

Saiu correndo do “botéquim” e pegou o trem em “Itapevi-Zúlio Pressis” [ou Júlio Prestes, para quem não identificou]. Depois, já no metrô, Joaquina estava tão ‘pra lá’ que desceu na estação Patriarca em vez de Itaquera. Atrasou mais. “Todos os santos e orixás me deem luz para não fazer isso”, gritou mais uma vez.

No “botéquim”, Joquina bebeu Dreher com limão, por isso perdeu a hora. Mas na verdade ela tinha ido para tomar chope, e como disseram que iam jogar o conhaque fora ela pegou. “‘Magina que eu ia deixar jogar o Dréia fora”, explicou. Foi quando ela começou a chorar. “Meu marido vai estar esperando no ponto”, lamentou.

Deu duro? Toma um "Dréia"

Deu duro? Toma um "Dréia"

Segundo ela disse, aquela era a primeira vez que chegava tão tarde em casa. O marido ia dar um pau nela. “Minhas malas e roupas vão estar tudo na rua quando eu chegar. ACELERA MOTORISTA”. Ela só chegava em casa tarde por causa da hora extra. “É isso, vou falar isso pra ele. Ele vai querer matar meu patrão”, disse e depois sorriu.

Joaquina então reclamou do patrão que “descontou R$ 10 do salário” no mês passado e a fazia trabalhar demais. Ela então perguntou as horas para outro passageiro. “DEZ PARA AS ONZE??? OH MEU DEUS, NÃO PODER SER ESSE HORÁRIO, SEU RELÓGIO ESTÁ ERRADO, MEU DEUS”. Nessa hora ela já tinha virado piada na lotação.

O cobrador disse que ela ia dormir na casa do cachorro e o motorista deu a ideia de ela ir para uma boate que ficava no caminho. “Melhor que dormir na casinha do cachorro ou levar um pau”, argumentou ele. Ela disse não e chorou de novo, como faria pelo menos mais quatro vezes. “Ele vai estar me esperando no ponto”, fungou.

No fim, ela virou amigo de todo mundo dentro do coletivo que ria de cada elevação de voz aguda que Joaquina dava. Na hora de eu descer, ela me seguiu e eu, cruelmente, pensei “o marido bem que poderia estar no ponto para eu ver isso”.

Mas Joaquina seguiu viagem.

Essa cena me lembrou do “Pissonado do busão“, do Eneaotil, e do meu “Relação entre álcool e amizade“.

P.S.: este deveria ser o segundo post sobre “histórias de coletivo”. A estreia deveria ter sido em “O que se faz para ter dinheiro”, mas essa foi a inauguração oficial da tag.
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Até onde as mentiras chegam

domingo, 31st *.* maio, 2009

Minha mãe sempre me ensinou que as mentiras têm pernas curtas. Desde de pequeno eu escuto esse ditado e muitos outros sobre o porquê de não mentir. Mas conforme a gente vai crescendo as coisas mudam e percebemos que alguns tipos de mentiras são válidos na vida, até mesmo porque são exigidas pela sociedade.

Nesse momento minha mãe veio explicar a diferença entre precisar realmente mentir e simplesmente mentir para se safar de certas coisas ou para se dar bem inconsequentemente. Nessa época eu estava na infância e tudo deu um nó. “Quer dizer que eu posso mentir, mas não posso?!” Fiquei confuso, mas depois aprendi o que ela estava querendo dizer.

Aprendi que tudo depende de até onde queremos chegar com essas mentiras, grandes ou não, necessárias ou não, de pernas curtas ou longas. Recentemente houve um fato que me fez voltar a pensar no que o humano é capaz para conseguir algo: a brasileira que acusou neonazistas de agressão na Suíça. Nessa semana, a advogada Paula Oliveira foi internada mais uma vez por causa de possíveis problemas psicológicos.

Claro que o caso dela é muito complexo, pois, como há fortes indícios, Paula pode ter algum problema que pode ter feito ela inventar seguidamente. Esses problemas seriam transtorno bipolar, ainda uma hipótese, e lúpus, esta última confirmada e que pode gerar alucinações nos pacientes.

Adoro House

Adoro House

Mas uso o exemplo da Paula para justificar o que eu vi nesse fim de semana no próprio House [ou outra série que não lembro bem]: quando mentimos uma vez, vamos ter que mentir até o fim. É um ciclo vicioso que nos deixa mal-acostumados e que gera a necessidade de se inventar mais e mais para que não tenhamos que explicar a mentira anterior.

Só que tem uma hora que a nossa cabeça sacaneia e esquecemos alguns detalhes da mentira e somos pegos. Nessa hora entendi o motivo de a mentira ter as pernas curtas: ela não consegue ir muito longe, nem pular tão alto e nem fazer qualquer outra coisa que pernas longas faria.

Primeiro Paula mentiu a gravidez. Depois a agressão, que teria feito ela perder os filhos gêmeos. A imprensa brasileira caiu matando num primeiro momento, afinal, era uma filha da pátria que estava sendo abusada lá fora. Depois, alguém percebeu que podia ser furada e a imprensa começou a condicionar as coisas. Foi quando avisaram que Paula poderia ter feito aquelas coisas com ela mesma. Daí vieram as análises médicas e policiais, que constataram algo errado.

Depois disso veio a enxurrada de mentiras: descobriram que a gravidez era outra farsa, e o ultrassom que ela mostrou como prova havia sido tirado da Internet; os amigos suíços dizem que Paula afirmou ter sido casada aqui, no Brasil, e fantasiado a morte do marido – primeiro, ele estava no voo da TAM que caiu em Congonhas, depois, ele teria sido atropelado por uma lancha.

Agora, Paula Oliveira está sendo processada pelo Ministério Público da Suíça por falso testemunho e, se ficar comprovado que ela estava consciente do que fez e estava querendo dinheiro do governo suíço ou tentando forçar o seu namorado casar com ela, poderá pegar até três anos de prisão.

Por isso, penso duas vezes antes de mentir. Mas nem por isso vou deixar de contar mentiras, afinal, uma psicóloga aí diz no seu livro que mentimos em 25% do tempo. É uma coisa natural. Só depende de como estamos usando essas mentiras e quais são as consequencias delas.